Vida de emigrante
Há muitas razões porque a vida de emigrante é difícil. Aqui vai uma...
A vida de emigrante requere alguma flexibilidade de amizades. Aqui na California estou-me a sentir confortável. Temos um grupo de amigos pequeno mas bastante coeso, e consigo imaginar-nos a ser amigos o resto da vida e ver-nos no futuro... no futuro, até nos separarmos outravez. E depois lembro-me de todos os amigos de quem me despedi a certa altura da vida, sempre com a promessa que nos veriamos em breve. Amigos muito queridos que ja não vejo porque mudei de país, porque escolhi (nas palavras dos meus queridos sogros) o caminho menos fácil. O caminho que parece, para quem fica, muito excitante, mas para quem parte é um desafio. Nós falamos principalmente das coisas boas, porque quando estamos com amigos estamos felizes e por isso lembramo-nos das coisas boas da vida, e não queremos conversas tristes, mas é uma dor.
É uma dor constante, por exemplo, saber que os nossos amigos estão a ter filhos e nós não estamos a partilhar essa experência com eles. Não e' algo que possamos dizer que experimentamos daqui a uns anos, porque aí eles já não vão ser bebés, e os pais já vão estar noutra fase de "parenthood". Vai ser uma lacuna nas nossas vidas... mas é o preço que se paga pela "aventura". Só vamos descobrir se é um preço caro demais mais tarde.
Tenho amigos que sei que provavelmente nunca mais vou ver. Não daqueles amigos que uma pessoa via de vez em quando nas aulas, ou em festas... mas amigos que parávamos a pensar "esta pessoa é mesmo especial, gosto dela, que sorte que tenho em ser amiga dela". E agora evito pensar que nunca mais as vou ver, evito admitir que a última vez que lhes disse adeus sabia que era a última.
Espero que eles saibam que não estou a fugir, que sinto falta deles. Amigos, família. Sinto saudades, sinto falta. Mas fico na mesma muito contente quando encontro outra pessoa especial. Quando faço um novo amigo. E não perco tempo a pensar que talvez não dure, e que talvez venha a sentir saudades deles também.
Sei que nunca irei ter todos os meus amigos perto de mim, no lugar onde moro, porque essa foi uma escolha que fiz. Sou emigrante, sou viajante, e gosto. Mesmo que doa.

